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Ana Maria Machado - No Imenso Mar

Ana Maria Machado – No Imenso Mar

O casamento entre leitura e a mente infantil é sublime. São os livros que permitem que nossos marinheiros de primeira viagem sonhem longe, voem alto, remem distante e tenham o primeiro contato com mundos encantados para, quem sabe um dia, visitá-los. A autora Ana Maria Machado conta a estória de um desses incríveis universos em ‘No Imenso mar azul’, que minha querida mãe encontrou empoeirado em nossa biblioteca. E por falar em contos maravilhosos, compartilho abaixo um delicioso cordel presenteado pelo tio, amigo, queridíssimo e talentoso, Fernando Antônio Carvalho, que narra um pouco da jornada que me trouxe até a travessia do atlântico que começarei em exatos 176 dias, 1 hora, 20 minutos e 43 segundos. Espero que vocês curtam a leitura (e se divirtam) com as palavras do tão querido tio Fê:

Homenagem a um sobrinho do coração que breve vai cruzar o Atlântico num barco a remo.

CORDEL DO MENINO QUE REMAVA
Nasceu louro e branquinho
com olhos azuis demais.
Cresceu no Rio, tadinho,
e um dia aportou nas Gerais.
Só pensava em jogar bola
fugindo da escola
com preguiça de aprender.
Um dia tomou juízo e na vida
deu-meia-volta-vou-ver. 
Foi para Belo Horizonte
estudar no Izabela,
atrás da serra e defronte
à Praça da Liberdade,

Do Rio ficou a saudade,
os sonhos e a vontade
de não sair pra sofrer.

Dito e feito, não deu outra…
Caezito tomou jeito
e virou bom estudante.
Voltou pro Rio de Janeiro.
Tomou gosto e em direito
o moleque se formou.
Voltou pra casa correndo,
de tudo agora sabendo
de tudo um pouco mais.

Cultura nunca é demais.
E agora bem mais sabido
é Doutor de verdade
com pós-graduação.
Em muitas línguas versado
já sabe falar enrolado,
Sem falar do português
que hoje fala arretado
de dar ciúme em letrado
cheio de ostentação.

Mas o saber contagia
e Caezito tomou gosto.
Queria mais e noite e dia,
nunca mais a contragosto,
mais estudava, mais lia,
e das leis se inteirava.
O Brasil ficou pequeno…
Vou-me embora pros states,
disse com opinião.
Rumou pro aeroporto
e de mala, merenda e cuia,
sem pra trás virar o rosto,
guardou na mochila o desgosto
e partiu de carreirinha
pra fazer o estrangeiro.

Passou numa tal de Harvard,
universidade de aprumo
e com fama de excelência.
Caezito as noites virava
sem tempo de ir ao banheiro.
Fizesse sol, nevasse ou chovesse
não perdia o interesse,
comendo livro e sanduba
e de manhã bem cedinho,
mal mal a cara lavava,
ligeiro pra aula rumava.
O mestre só vigiando
quando Caezito emborcava.
Não sabia se o aluno dormia
ou o moleque cochilava.

Mas veio a formatura e o canudo…
Caezito fez as malas e voltou.
Male e mau chegou em casa
e a caixa do correio lotou.
Proposta de emprego adoidado,
com direito a mordomia
em escritório renomado.

Analisado os pesos e medidas,
pesado e repensado os poréns,
Caezito ouviu o canto da sereia
e mesmo com a cara feia,
pois São Paulo não é Rio,
pra adoçar a empreitada
de encarar tal desafio.

Estudando feio louco,
sem tempo pra mais nada.
Lazer que é bom muito pouco,
virando noite e madrugada.
Só contrato complicado
com muita grana envolvida.
Gente graúda, bem de vida,
do Brasil e de estrangeiro.
pois a grana era dinheiro
de sobra e a dar com o pau.

Aí que saudade de casa…
Das praias e do Fogão.
Minha estrela solitária
brilha no ceú solidária
com o meu triste coração.

Caezito se rendeu à saudade
e pegou o primeiro avião.
E agora o que fazer da vida?
Direito talvez queira ou não,
pensou lá com os seus botões.
Enquanto isto sonhava
cruzar a atlântico a nado
de remo, vela ou pranchão.
Pois o melhor da jornada
quase não vale nada
se não tiver emoção.

Juntou uma turma da hora
e traçou uma rota maluca
no meio do grande mar.
Só que o barco é a remo
e no braço vai singrar
o grande mar-oceano
e volta, se não engano,
bem na hora do jantar.
Ponha o seu prato na mesa
que a fome é de além-mar.

O resto da história não conto
que a graça e o perguntar
no que deu a maluquice
de noite e dia remar
por um mar mais perigoso,
cheio de onda e procela,
do que olhar da donzela
que um dia vai te pegar.

Mas uma coisa eu te digo
meu curioso leitor:
mudo o meu nome pra Maria
se mais hoje ou amanhã,
bem ao raiar do dia,
lá no fim do horizonte
não aparecer um mastro
com a bandeira do Brasil.
E se barco vem ligeiro,
furando onda brejeiro
é Caezito voltando.
Vento na cara,
sorriso sobrando.
Eta moleque danado.
Poucos assim se viu.
É Caezito chegando…
puta que pariu !…

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