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Há 30 anos o nosso Amyr partia para conquistar o Atlântico sul

Cae I.A.T

Aos dez anos li o clássico ‘Cem dias entre o céu e o mar’, de Amyr Klink. Maravilhado, folheava as páginas e viajava entre cartas, rascunhos, estudos e incríveis histórias que o Amyr viveu ainda em 1984, quando GPS, EPIRBs e outras tecnologias hoje habituais na navegação oceânica eram equivalentes ao skate voador do ‘De Volta para o Futuro 2’.

É incrível como os caminhos percebi que a ideia de remar um oceano era possível, e da tão querida Carol Gottardi, tive a oportunidade de conhecer o Amyr e ouvir dele um pouco mais de suas histórias espetaculares. Por duas horas e meia de papo com o Amyr, sem piscar, ouvi seus casos; naveguei  oceanos em que nunca estive, cortei ondas que nunca vi e venci tormentas que nunca enfrentei. Muito gentilmente, o Amyr compartilhou seu famoso ‘Dossiê Amarelo’, que, minuciosamente, detalha como sua ideia inicialmente maluca de atravessar o Atlântico sul fazia pleno sentido.

Em 1993, quando li alguns dos relatos que com 31 anos ouviria diretamente do Amyr, não duvidava disso. Hoje, a inspiração que tenho recebido de tantas pessoas amadas (sobretudo de você, Ciça Schurig) na preparação para a minha travessia no final desse ano me traz a certeza de que todos os caminhos me levam ao mar.

Do  encontro com o querido Amyr, além da inspiração para avançar no meu projeto de travessia oceânica, nascia a oportunidade de  conhecer o bravíssimo I.A.T. Para quem não o conhece, esse é o barquinho de madeira das fotos, de menos de 400 quilos e menos de sete metros, que o Amyr utilizou para viver tantas aventuras nos 101 dias em que percorreu o trecho entre Lüderitz, na Namíbia, e a Praia da Espera, na nossa Bahia de todos os santos.

Graças ao amigo Jackson Bergamo, cujo trabalho (ou ao menos um pouco de suas criações incríveis em madeira) tive o prazer de divulgar nesse blog há uma semana, pude “namorar” o I.A.T. (já restaurado pelo craque Jackson) em todos seus detalhes. Sentei no carrinho, que o Amyr usou para suas milhões de remadas na travessia, encaixei o pé no finca-pé de couro, mexi na forqueta de ferro e entrei na cabine em que o Amyr viveu dias e mais dias entre suas anotações e planos. Uma das partes que mais recordo  desses cem dias de história foi quando Amyr, ainda próximo à temida costa dos esqueletos na África, permaneceu sete dias trancado na cabine do I.A.T., enquanto seu bravo barquinho de madeira resistia às tempestades virando e retornando à sua posição original (isso por meio de um engenhoso sistema de válvulas do I.A.T.) e surfava enormes ondas em direção ao lar doce lar que lhe aguardava.

Bom, como foi estar na pequena e tão acolhedora cabine do I.A.T.? Senti a liberdade que desde os dez anos de idade buscava. Foi maravilhoso voltar aos meus sonhos de criança e ser adulto para poder realizá-los. Bravíssimo, Amyr! Meus parabéns pelos 30 anos de sua partida de Lüderitz para conquistar o Atlântico sul.

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